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A escrita de John Steinbeck (parte 1)

Hoje começo a postar trechos da obra “Caravana de destinos” (Cannery Row), do escritor John Steinbeck, Prêmio Nobel de Literatura, em 1962.

O livro é imaginado em Monterrey, na Califórnia, e narra a vida de personagens marginais (bêbados, lúmpens, prostitutas…) na rua Cannery Row.

A vida na beira do mar é recorrente na obra. No trecho abaixo, Steinbeck descreve a “guerra” entre os animais marinhos na Grande Restinga.

Leia:

“Uma onda passa por cima da barreira de recifes e agita por um momento as águas serenas, criando espumas e borbulhas na restinga. Mas logo aquele mundo encantado volta a ser sereno, adorável e brutal. Aqui, um caranguejo arranca uma perna do irmão.

As anêmonas se expandem, como flores brilhantes e acolhedoras, convidando qualquer animal cansado e aturdido a repousar por um instante em seus braços. E quando algum pequeno caranguejo da restinga aceita o convite verde e púrpura, as pétalas imediatamente golpeiam, as células de ferro injetando minúsculas agulhas de narcóticos na presa, que vai ficando cada vez mais fraca, talvez sonolenta, enquanto os cáusticos ácidos digestivos vão dissolvendo seu corpo.

É nesse momento que surge o assassino furtivo, o polvo, avançando lentamente, suavemente, quase como se fosse uma neblina cinzenta….Subitamente, sai correndo sobre as pontas dos tentáculos, tão ferozmente com um gato a dar o bote. Pula selvagemente sobre o caranguejo, há um esguicho de fluido preto. A massa a se debater é obscurecida por uma nuvem sépia, enquanto o polvo mata o caranguejo.

[…]

O ar está impregnado com o cheiro forte de iodo das algas, o cheiro de limo dos corpos calcários, o cheiro multiforme de incontáveis espécies, o cheiro de esperma e ovas. Nos rochedos expostos, as estrelas-do-mar emitem sêmen e ovos entre os seus raios. Os cheiros de vida e exuberância, de morte e digestão, de deterioração e nascimento, se espalham por toda a parte. Os respingos de espuma sopram da barreira de recifes, além da qual o oceano espera que a maré torne a subir para ter novamente forças para invadir a Grande Restinga. E nos recifes, a bóia automática sonora emite o seu lamento, como um touro triste e paciente.”

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