E o poeta, quem é?

Eloy Melonio é professor, escritor, poeta e compositor

Certamente não é “ladrão de mulher”, como diziam as pessoas ao se referir ao palhaço do circo. E também não é o que muita gente diz ou pensa que ele é.

Leio e ouço com frequência que, na tentativa de definir o “poeta”, algumas pessoas se referem a esse artista como um ser diferenciado, com uma aura de supremacia moral e intelectual. E beneficiário de dons da tão celebrada “inspiração”. Tentam defini-lo como se todos fossem “um”, e um fosse “todos”.

Demorei algum tempo para me aceitar e me proclamar poeta. Talvez por causa dessas caracterizações superficiais. Estou mais para o tipo definido por Cassiano Ricardo (1894-1974): “O poeta é um homem que trabalha o poema com o suor do seu rosto. Um homem que tem fome como qualquer outro homem”.

No meu caso: que atrasa seus pagamentos, que se esquece de seus compromissos. Que diz palavrão, bebe cerveja! E não duvide se também não estou na mesma vibe de Cássia Eller, na canção “Malandragem” (1994): Eu troco cheque. Mas, hoje, com o velho cheque aposentado, a cantora e compositora carioca, falecida em 2001, certamente pegaria dinheiro emprestado, via PIX.

Apesar de comum entre os poetas (e não-poetas), nunca gostei de ser tratado por “poeta”. Não reclamo, mas não me sinto bem. Prefiro atender pelo meu nome próprio.

Em relação à poesia (e ao poeta), parece-me razoável a visão de Cecília Meireles (“nem alegre nem triste”); ou a de Ferreira Gullar (“nem fede nem cheira”); ou mesmo a consagrada definição de Fernando Pessoa (“um fingidor”).

Nessa perspectiva, vejo o poeta (ou a poetisa) como um artista igual aos outros. Alguém que sabe “trabalhar a palavra”, assim como um escultor esculpe o mármore ou o bronze com destreza. Ou um ator, que “naturalmente imprime sua concepção às expressões humanas”. 

É errado então definir o poeta ou a poesia? Acho que não. Muitos o fazem, não apenas para definir, mas para revelar seu modo particular de vê-los enquanto “artista da palavra”e “gênero textual”. Ferreira Gullar rejeitava qualquer tentativa de definição. Mário Quintana dizia que “a poesia não se entrega a quem a define”. Cassiano Ricardo, já citado neste ensaio, define a poesia da forma mais simplista possível: “uma ilha cercada de palavras por todos os lados”. Isso basta? Para mim, uma definição satisfatória, desde que se tome “ilha” por um sem-número de possibilidades metafóricas.

Quanto à minha visão, tento dar uma contribuição em alguns versos:“O poeta diz o que vê e o que sente/ que pode ser verdade/ ou apenas invenção de sua mente”; “O poeta é um ser/ que não sabe/ se o ser/ excede o parecer”;“Sou dor que finjo não sentir. Sou ideia e fantasia. Sou ninguém e todo mundo. Sou poesia.” (versos do livro Dentro de Mim, p. 62).

Numa crítica sobre o livro “Geometria do Lúdico”, do poeta Weliton Carvalho, o prof. José Neres fala do exagero de algumas pessoas ao se proclamarem poetas: “São poucas, porém, as que conseguem atingir o status de trabalho de boa ou pelo menos razoável qualidade literária”. No mesmo artigo, o professor de literatura, escritor e membro da Academia Maranhense de Letras declara, depois de falar da qualidade dos poemas, que o referido autor “realmente pode ser chamado de poeta” (grifo meu).

Ouço sempre com atenção o recorrente conselho do meu amigo e “mestre”, prof. Fernando Novaes: “A literatura (…) é a arte da palavra escrita esteticamente”. Nesse aspecto, o prof. José Neres está absolutamente certo: nem tudo o que vê por aí é “poesia”, e nem todos os que se intitulam poetas são realmente poetas.

Em “Epigramas de Artur Azevedo” (pág. 31), Dino Cavalcante e José Neres destacam a veia crítica e cômica do teatrólogo maranhense ao se referir à falta de qualidade nos versos de um contemporâneo: “(…) Eu prosa não quero mais/ O verso é mais delicado/ Se não é de pé quebrado/ Como o de Melo Morais”. 

Deixando de lado o humor, um professor de literatura refez o formato de um poema, transformando-o em prosa. E provou que, na verdade, o texto estava mais para prosa do que para poesia. Faltava-lhe “apuro artístico, beleza e harmonia”, a tão exaltada “estética”. Assim, os poemas hoje assumem diferentes formatos, cada um traduzindo o estilo de seu autor, que, por sua vez, assume um determinado estilo de criação. Uns, sozinhos; outros, em grupos fechados; e muitos, perdidos no meio do caminho.

Posso dizer que a poesia navega as águas tranquilas da liberdade criativa. Isso significa que a ideia do “poeticamente correto” foi para o brejo? Ou melhor, o jogo virou uma pelada? Uma resposta difícil. Deixo-a para os especialistas.

Não hesito em fazer minhas as palavras de Carlos Drummond de Andrade: “Entendo que a poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta, quem apenas verseja (…) sem se entregar aos trabalhos cotidianos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação”.

Sem a pretensão de definir, o poeta é um artífice da palavra escrita, empenhado em expressar sua visão do mundo em versos impregnados de sensibilidade, imaginação, fantasia. Ou, numa concepção lexicográfica, “aquele que tem faculdades poéticas e se consagra à poesia”.

Quando comecei a esboçar meus primeiros poemas, hesitava em mostrá-los a outras pessoas. Não tinha convicção de que eram realmente poemas. E só havia uma saída: verificar se estava no caminho certo. A saudosa profa. Elaine Araújo, que prefaciou meu primeiro livro, foi minha tábua de salvação. E, como num passe de mágica, em 2004, sou presenteado com o livro “DRUMMOND, um olhar amoroso”, da profa. Luzia de Maria. Esse livro representou minha “faculdade da poesia”, de onde não pretendo sair. Ou seja, minha fonte real de teoria e inspiração.

Em seguida, corri para o abraço, e penetrei “surdamente no reino das palavras”. E como resultado desse relacionamento: “Dentro de Mim” (2015) e “Travessia” (2021). Hoje, na cabeça e no coração, ideias, projetos, sonhos.

Sinto-me à vontade na minha praia poética. Mas não sou sereia para ficar apenas “sambando na beira do mar”. Quero ir além, “atravessar” as fronteiras da criação com maturidade ecom o passaporte do “esteticamente poético”.

Nessa travessia, minha sugestão a quem pretende escrever poemas: Viver é a arte de poetizar a vida.Sem jamais se esquecer da lição de Machado de Assis: “poetizava por natureza, como as flores dimanam cheiros”.

E aos iniciados, não se deixem confundir com um palhaço.

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Eloy Melonio é professor, escritor, poeta e compositor

9 comentários em “E o poeta, quem é?”

  1. Sensacional este texto, uma crônica verdadeira com algumas passagens que provocam uma reflexão a cerca do poema e do poeta, muito mais dos que versejam acreditando serem poetas. Atinge o alvo dos versadeiros Artistas das palavras e um puxão de orelha aos que necessitam evoluir, com todo respeito… Bravo Eloy

  2. Texto bastante interessante, com várias definições para “poeta”. Certamente há muitas outras, também verdadeiras, o que me faz imaginar ser impossível definir, de forma conclusiva, a arte …

  3. Eloy Melonio se inscreve em busca da eterna resposta, porque, se a pergunta é uma, um poeta só, se é genuinamente poeta, são muitos. Depois, cada um, dentre centenas e centenas de poetas, tem a sua dicção específica, quer seja do verso, quer da prosa, do cinema, da coreografia, das artes plásticas, da música etc. O melhor conceito que li sobre poeta: “Aquele que consegue transformar o ordinário em extraordinário” Sim, o comum em excepcional. Mas o fundamental é o texto que, por si, transforma quem escreve em poeta.
    Alberico Carneiro

  4. Gostei dos conceitos levantados e criados pelo poeta Eloy Melônio. Gosto também deste: “Aquele que e capaz de transformar o ordinário em extraordinário”. Sim, o comum em excepcional.

  5. Admirável a sua abordagem a respeito de tão controvertido tema. O poeta, ao se questionar, abre novos horizontes de criatividade. Parabéns , Eloy!

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