“O cacique suburbano”: amplificadora Voz Tupi marcou época do Lira ao Anjo da Guarda

Pelos alto-falantes da Voz Tupi muita gente namorou e até casou. A música de Odair José Pare de tomar a pílula era “febre”. Havia também os animados shows de calouros que revelaram talentos musicais nos bairros de São Luís

Antes do surgimento da rádio comunitária Bacanga FM, no Anjo da Guarda, houve pelo menos três serviços de alto-falante no bairro: Voz Tupi, Voz Montecarlo e a Rádio Popular. No início da década de 1970, a Voz Tupi foi a principal referência de comunicação local utilizando equipamentos de propagação da voz – microfone, amplificador e alto-falante. Nesse interstício surgiu ainda a Voz Montecarlo. A partir de 1988, durante uma década (até 1998), foi a vez da Rádio Popular dominando os “ares” do Anjo da Guarda e adjacências.

Saiba mais sobre a Rádio Popular aqui.

Originada no bairro Lira, a Voz Tupi chegou no Anjo da Guarda após o rumoroso incêndio nas palafitas do Goiabal, em 1968, que provocou o primeiro grande deslocamento populacional para a região Itaqui-Bacanga.

Memórias e emoções de José de Ribamar Furtado sobre a Voz Tupi

O radialista José de Ribamar Furtado, 63 anos, também conhecido no meio radiofônico como Ribinha, lembra um bordão marcante falado pelo advogado Jurandir Sousa : “Voz Tupi, 20 anos no ar servindo bem a comunidade”. Furtado começou a trabalhar na Voz Tupi logo no início da década de 1970, como operador, assim que a emissora chegou no Anjo da Guarda.  

Segundo o radialista, a amplificadora cresceu junto com o bairro e foi uma prestadora de serviço para os moradores. “Era uma escola e ajudou muito na minha caminhada no rádio no Maranhão. A Voz Tupi era chamada o cacique suburbano e teve como donos iniciais o advogado Jurandir Sousa, Vadico e Oliveira”, recordou.

Já o bancário aposentado Raimundo Silva Pereira Neto morou no Lira e no Anjo da Guarda, onde chegou em novembro de 1969. Nos dois bairros recorta as memórias da Voz Tupi, liderada por Wlademir de Oliveira Silva, o Vadico, e Jurandir Sousa. Nas duas amplificadoras a música dominava a programação, mas elas repercutiam também os acontecimentos do bairro, avisos, informes, utilidade pública, anúncio de aniversário e falecimento de moradores, notas sobre o dia-a-dia da comunidade e propaganda do comércio local.

No Anjo da Guarda a amplificadora funcionava nas proximidades do Teatro Itapicuraíba. “Era um cômodo onde tinha o estúdio e um poste de madeira com o alto-falante. Existia um grupo de músicos do Anjo da Guarda (Chiquinho, Seu Doca, Vavá). Eles anunciavam ‘daqui a 15 dias vai ter um programa de calouro’ e as pessoas se inscreviam e no dia montavam o palco, passavam as músicas e era convidada uma equipe para fazer o julgamento. Havia muita participação popular”, enumerou Neto, reiterando que os programas de calouros eram o aspecto mais emblemático. “Pra mim aquilo já era o estímulo da produção da arte popular. A Voz Tupi estimulava isso através da música”, enfatizou.

Cacique suburbano

A expressão “cacique” era uma referência à cultura indígena. No bairro Coréia, por volta da década de 1950, havia a amplificadora Voz Guarani, conforme o relato de Ligia Oliveira Belfort (reveja aqui)

Provavelmente, as denominações indígenas dos serviços de alto-falante seguiam a lógica dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, que designavam as emissoras filiadas sempre com referência às etnias. No Maranhão, a rádio Gurupi e depois a Timbira são exemplos dessa tendência.

José de Ribamar Furtado conta que foi levado para a amplificadora por Haroldo Viana. “Eu comecei como operador. A Voz Tupi tinha dois pratos (toca discos) e por ali eu comecei a aprender a colocar a emissora no ar. Havia um amplificador de 75 watts, a válvula. Com a ida do Haroldo Viana para Brasília eu passei a ser locutor também. Aos poucos fui tomando consciência da responsabilidade que eu estava abraçando para que essa aprendizagem me levasse até o rádio”, explicou.

José de Ribamar Furtado: do alto-falante ao rádio profissional,
trabalha atualmente na Câmara dos Vereadores de São Luís

Espalhadas em diversos bairros de São Luís, as amplificadoras geralmente apresentavam como principal produto a programação musical e nos fins de semana os animados “shows de calouros”. Segundo Furtado, os concursos de cantores amadores na Voz Tupi eram oportunidades para revelar novos talentos musicais que tinham dificuldade de inserção nas rádios.

Em algumas ocasiões, a Voz Tupi fazia a retransmissão das partidas de futebol ou inseria os jornais falados das emissoras profissionais de rádio AM, mas os hits davam o tom na programação. “O essencial era tocar os sucessos. Quando chegou aquela música de Odair José, “Pare de tomar a pílula”, ave maria, era legal”, comemorou, explicando que os discos (LPs de vinil) eram comprados nas lojas ou distribuídos pelos produtores e propagandistas das gravadoras.

Odair José era um dos cantores mais tocados na Voz Tupi

A escritora Lourdes Lacroix, no livro “São Luís do Maranhão Corpo e Alma” registra a existência das amplificadoras desde janeiro de 1930 na capital, quando “a Casa Autovictor, situada na Praça João Lisboa, inaugurou um serviço de altofalante com o objetivo de projetar artistas locais.” (Lacroix, 2012, p. 520)

Embora já houvesse emissora profissional de rádio AM instalada em São Luís desde o início dos anos 1940, os serviços de alto-falante ou voz ainda tinham uma relativa importância nos anos 1970. “Havia uma disputa fantástica pela audiência entre as rádios profissionais, mas existia um apelo popular porque a gente tinha nosso espaço através dos serviços de alto-falante, apesar da força do rádio AM no Maranhão”, esclareceu Furtado.

As formas de arrecadação ocorriam mediante a cobrança pela veiculação de mensagens comemorativas, anúncio de produtos dos estabelecimentos comerciais, divulgação de festas e eventos em geral.

No Anjo da Guarda a Voz Tupi funcionava diariamente das 11h às 13h e das 17h às 19h. Excepcionalmente aconteciam as alvoradas musicais para homenagear um aniversariante. Nessas ocasiões a emissora tinha uma transmissão específica às 6h da manhã com oferta de músicas e mensagens ao homenageado.

Audiência e namoro pelo alto-falante

A interação com a audiência era ativa. “A comunidade sempre participou de maneira direta ou indireta, principalmente através de carta e mensagens. Sempre teve essa aproximação entre o trabalho da voz e o ouvinte. Era tão participativo que todas as vezes que falecia alguém e a gente tocava a música “El silencio” gerava expectativa para saber quem havia falecido. O bairro inteiro parava”, detalhou o radialista Furtado.

Música El silencio deixava o bairro em suspenso para saber quem morreu

Pelos alto-falantes da Voz Tupi muita gente namorou e até casou. A veiculação de mensagens afetivas ou o oferecimento de música aproximava as pessoas pela emoção. “Eu casei com a minha primeira esposa – Dulcié Bastos Furtado – através da Voz Tupi. Ela achava minha voz bacana, me admirava. Pra mim foi marcante. Eu lembro até de algumas músicas que eu colocava pra ela, como “Davy”, na voz de Nalva Aguiar; e “Meu bom José”, interpretada por Rita Lee. Mas não foi só eu não. Teve outros companheiros que se casaram pela Voz Tupi”, apontou.

Veja abaixo os videos de Nalva Aguiar e Rita Lee

Música de Nalva Aguiar foi o “cupido” no primeiro casamento de Ribinha
Ribinha também oferecia música de Rita Lee para conquistar a primeira esposa

De acordo com Furtado, as amplificadoras fizeram escola para muitas pessoas que posteriormente foram para o rádio. “Foi o berço da minha trajetória e de vários outros companheiros. Com eles aprendi a trabalhar com seriedade, informação precisa e verdadeira”, detalhou.

Imagem destacada / Entrada do bairro Anjo da Guarda / Acervo do jornal O Imparcial / capturada neste site

Violência contra Cajueiro é exagerada e descabida

Os fatos recentes sobre o despejo da comunidade Cajueiro para a construção de um porto privado em São Luís, com capital chinês, extrapolaram o bom senso.

Usando um aparato policial exagerado e muita violência, o Governo do Estado não só acionou a Polícia Militar para garantir o despejo na zona rural como também para expulsar os manifestantes que estavam acampados no Palácio dos Leões.

Tropa de choque da PM usou bombas de efeito moral para dispersar o acampamento

A Polícia Militar agiu de forma desproporcional contra os acampados, lançando bombas de efeito moral e outros equipamentos repressivos com tal agressividade que causa espanto, indignação e revolta.

Quando tomou posse, o governador Flávio Dino afirmou em alto e bom som que os leões do palácio (sede do governo) nunca mais iam rugir contra o povo do Maranhão.

O que se viu ao longo desse dia 12 de agosto de 2019 foram mais que rugidos. Os leões usaram as suas garras para derrubar as casas de dia e desmobilizar o acampamento pacífico das pessoas pró-Cajueiro, à noite.

Esses fatos, de tão espantosos e aviltantes, deixaram perplexas até mesmo aquelas pessoas que pouco se manifestam sobre política no Maranhão.

Mais repressão e prisão de um dos manifestantes na porta do Palácio dos Leões

Diante de tanta violência, só resta a indignação e a denúncia. Repetem-se, neste governo, as velhas práticas da oligarquia: o massacre contra os pobres.

A violência em Cajueiro é consentida porque lá estão lavradores, pescadores e extrativistas.

São tantas as injustiças no Maranhão… mas não se vê a mesma contundência da Justiça e da Polícia Militar para combater a grilagem e a violência no campo.

Pouco se nota a ação do sistema de Justiça e do governo para impedir a grilagem urbana ou o esquema de agiotagem nas prefeituras.

Bem ali, perto do Palácio dos Leões, a Prefeitura de São Luís conspira para mudar o Plano Diretor e reduzir a área rural da cidade em 40% visando atender aos interesses da especulação do grande capital.

Cajueiro é mais um passo na escalada do processo de modernização conservadora iniciada pela Vale e Alumar nos anos 1980 que não resultaram em melhoria da qualidade de vida da população, não reduziram as desigualdades e também não geraram empregos necessários.

Temos mais ônus que bônus com esses grandiosos empreendimentos que não se traduzem em desenvolvimento no sentido pleno.

Ainda sobre o despejo e a violência na porta do Palácio dos Leões, resta sempre insistir no diálogo como o melhor caminho para resolver o conflito.

Infelizmente, o governo preferiu as bombas de efeito moral, os tratores, as balas de borracha, as sirenes das viaturas e o choque.

Arrogância sem limites.

Estácio e Abraço oferecem capacitação para rádios comunitárias

Uma nova oportunidade para radialistas comunitários do Maranhão!

Já estão abertas as inscrições do Curso de Capacitação para Radialistas Comunitários 2019.2.

O curso é uma parceria entre a Faculdade Estácio e a Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço) no Maranhão.

Todo o curso é gratuito. Trata-se de um Projeto de Extensão da Faculdade Estácio.

As aulas acontecerão em 8 (oito) encontros presenciais de agosto a novembro/19, aos sábados, das 8h às 12h, em sábados alternados.

O início será dia 24 de agosto de 2019, na Faculdade Estácio (Diamante), em São Luís.

Inscrições

Para fazer a sua inscrição entre em contato com o diretor da Abraço Maranhão, Marcio Calvet, no fone e Whats App (98) 98124-6827

Pré-candidatura de Rubens Junior vale para 2020 e 2022

O deputado federal licenciado e atual titular da Secretaria de Cidades e Desenvolvimento Urbano (Secid), Rubens Pereira Junior (PCdoB), é um nome firme do governador Flávio Dino para disputar a Prefeitura de São Luís em 2020.

O secretário está turbinado pelo programa Nosso Centro, uma ação planejada para dar visibilidade ao pré-candidato nas asas do conjunto de investimentos previsto para a grande área do Centro Histórico e os seus arredores.

No comando da Secid, Rubens Junior vai pilotar inicialmente R$ 140 milhões do programa Nosso Centro, com a meta de investimentos na recuperação de casarões, educação tecnológica e geração de empregos mediante parceria com o setor privado.

Originário de Matões, com família influente no controle daquele município, Rubens Junior não tem raízes em São Luís. O programa Nosso Centro seria uma forma de conectá-lo à capital por um território que ganhou mais visibilidade publicitária após a decoração das festividades juninas de 2019.

No São João e nas férias de julho as ruas da tradicional Praia Grande (projeto Reviver) passaram a ser visitadas pelos moradores de São Luís em busca do atrativo cenário colorido para as cobiçadas fotografias, gerando uma identidade reforçada pelas imagens entre a população da capital e o Centro Histórico.

O programa Nosso Centro é um caminho para vincular Rubens Junior a um ambiente de São Luís onde transitam formadores de opinião, artistas, produtores culturais e também abriga grandes eventos como o Carnaval e o São João, sem demérito das outras regiões da cidade.

Enfim, o pré-candidato precisa de uma “liga” com a “ilha”, considerando que, até então, é visto como político referenciado nos redutos eleitorais do continente/interior.

Na eleição de deputado federal em 2018 ele foi eleito com 111 mil 584 votos, mas conseguiu apenas 9.320 sufrágios na capital , quase a mesma votação obtida em sua terra natal, Matões – 9.311 votos.

Em São Luís, o deputado federal Bira do Pindaré (PSB), por exemplo, tem mais identidade com os sentidos da cidade, além da militância.

Rubens Junior é o preferido do PCdoB para disputar a Prefeitura de São Luís, mas várias fontes com trânsito dentro e fora do governo avaliam que o secretário é também um nome pensado para a própria sucessão do governador Flávio Dino em 2022.

O secretário seria, em tese, um político de confiança do governador. Daí, se não der certo para prefeito, pode ascender à condição de candidato à cadeira principal do Palácio dos Leões em 2022.

Cada eleição é um caso, mas a votação de 2018 serve para balizar, em parte, 2020 e os pleitos futuros.

Imagem destacada: Acompanhado de assessores, o secretário Rubens Junior aponta para os casarões no Centro Histórico (Foto: Jasf Andrade)

Nota do PT: transferência de Lula é novo ato de perseguição

“Lula sequer deveria estar preso em lugar nenhum porque é inocente e foi condenado numa farsa judicial”, traz a nota subscrita por Gleisi, Pimenta e Humberto Costa.

1) A decisão de transferir o presidente Lula de Curitiba para São Paulo é de exclusiva responsabilidade da Superintendência da Polícia Federal do Paraná, que solicitou a medida, e da juíza de Execuções Penais Carolina Lebbos, que deferiu o pedido sem considerar os argumentos da defesa do ex-presidente.

2) Lula não deveria estar preso em lugar nenhum porque é inocente e foi condenado numa farsa judicial. Não deveria sequer ter sido julgado em Curitiba, pois o próprio ex-juiz Sergio Moro admitiu que seu processo não envolvia desvios da Petrobrás investigados na Lava Jato.

3) A decisão da juíza Carolina Lebbos caracteriza mais uma ilegalidade e um gesto de perseguição a Lula, ao negar-lhe arbitrariamente as prerrogativas de ex-presidente da República e ex-Comandante Supremo das Forças Armadas.

4) O Partido dos Trabalhadores exige que os direitos de Lula e sua segurança pessoal sejam garantidos pelo estado brasileiro, até que os tribunais reconheçam a sua inocência, a parcialidade da sentença de Moro e a ilegalidade da prisão, onde quer que seja cumprida.

Gleisi Hoffmann, presidenta nacional do PT
Paulo Pimenta, líder do PT na Câmara dos Deputados
Humberto Costa, líder do PT no Senado Federal

Brasília, 7 de agosto de 2019

Imagem destacada: Militância na porta da Polícia Federal em Curitiba reafirma “Lula livre” / Ricardo Stuckert

São Luís: a cidade encantadora ameaçada pelo Plano Diretor

Enquanto a população se deslumbra com as maquiagens na cidade, a Prefeitura e parte da Câmara de Vereadores costuram mudanças perversas na legislação urbanística que podem levar a capital ao caos

O ano de 2019 “celebra” os 30 anos de domínio relativo do PDT em São Luís. Embora não tenha elegido todos os prefeitos consecutivamente desde 1989, o partido segue no comando das principais instâncias de poder na máquina pública.

Nessas três décadas pelo menos as avenidas principais da cidade deveriam ter condições melhores de pavimentação. No mais, nem vamos perder tempo avaliando o segundo mandato de Edivaldo Holanda Junior.

Seguindo a tradição, o prefeito se esbalda na propaganda para divulgar seus feitos e esconde o principal: a revisão na legislação urbanística.

A quase totalidade da população sequer tem conhecimento de que a Câmara dos Vereadores vai apreciar a proposta de revisão do principal instrumento de planejamento da cidade. O Plano Diretor é a lei maior e dela derivam outras importantes relacionadas ao zoneamento, uso e ocupação do solo, toponímia, etc.

O Estatuto das Cidades orienta a realização de audiências públicas para que a população participe efetivamente dos debates e tome amplo conhecimento das mudanças previstas no Plano Diretor.

A Prefeitura de São Luís praticamente silenciou a divulgação das nove audiências públicas realizadas em janeiro e fevereiro de 2019 para apresentar a proposta de revisão da legislação da cidade.

A primeira audiência, realizada em 15 de janeiro de 2019, na Faculdade Pitágoras, foi esvaziada do principal – a população.  As audiências de fachada apenas cumpriram as exigências do Estatuto das Cidades e foram ocupadas por funcionários da Prefeitura, lobistas da construção civil e do setor industrial e portuário. além de representantes dos movimentos sociais.

Os moradores da cidade não participam simplesmente porque não foram convidados com ampla divulgação e propositadamente a Prefeitura esconde do interesse público um tema que mexe diretamente na vida de mais de 1 milhão de pessoas.

O calor, as inundações e os alagamentos, a falta de água, os engarrafamentos, a morte dos rios, a mobilidade urbana e rural, a poluição intensa das praias, do ar e das águas subterrâneas, a violência etc têm relação direta com o Plano Diretor.

Os mais apaixonados e encantados com a cidade vão dizer que há exagero nesta análise, mas a coisa é grave. Não se trata apenas de revisão da lei, mas de uma descarada entrega da cidade para a especulação imobiliária e ao capital internacional visando transformar São Luís em uma cidade portuária e industrial.

Entre as várias aberrações, a proposta de revisão do Plano Diretor que será apreciada pelos vereadores prevê a redução da área rural em 41%.

Quem mora no Centro ou nos bairros urbanizados pode até não perceber com intensidade, mas a zona rural tem importância fundamental na qualidade de vida de toda a cidade. Se forem retirados 41% da zona rural as implicações serão sentidas por tod@s, indistintamente, até para quem mora na área nobre.

A zona rural é um precioso território no contexto do mercado de terras em São Luís. 41% significam 8.643 hectares a menos (redução de 20.820 para 12.177 hectares.

Os principais operadores do mercado de terras são as empreiteiras (Sindicato da Construção Civil – Sinduscon), a Vale, a Alumar, a Federação das Indústrias do Maranhão (Fiema) e o capital internacional chinês, entre outros grupos econômicos interessados em um vasto território fundamental para a qualidade de vida na cidade.

Silenciosamente, sem que a população tome conhecimento, a Prefeitura e os lobistas com influência nos três poderes armam uma bomba para o próximo aniversário de São Luís.

Brevemente, a Câmara dos Vereadores vai debater o tema mais importante para o futuro próximo da cidade. Espera-se que os nossos parlamentares tenham sensibilidade para não fazer do Plano Diretor um presente estragado nos outros 400 anos de São Luís.

Verdades e mentiras

por Renato Ortiz

Publicado no site GGN

“Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”; “Os dados da economia estão maravilhosos”; “Suicídio acontece pessoal pratica” (em relação à morte do jornalista Herzog); “É uma coisa que não mede a realidade” (em relação ao IBGE); “Estou convencido que os dados de desmatamento são falsos”. As afirmações são daquele que ocupa o mais alto cargo político do país: presidência da república.

A lista poderia ser alongada, mas seria inútil ampliá-la, importa entender: elas são recorrentes. Uma forma de se interpretar este comportamento bizarro é dizer que simplesmente nos encontramos diante de um conjunto de mentiras (diz-se muitas vezes fake news).  Esta é a explicação corrente entre jornalistas e políticos. Basta lermos os jornais, blogs e sites de notícias para nos convencermos disso.

Cada afirmação pode ser desmentida pela apresentação dos dados de realidade: há fome no Brasil; a economia anda mal; Herzog foi assassinado; o IBGE é uma instituição confiável; o desmatamento é um fato. O equívoco seria desconsiderar o mundo real de maneira assim tão evidente; as afirmações seriam uma espécie de aberração. Entretanto, outra interpretação, que não anula inteiramente a anterior, é possível. Há primeiro um elemento que não se pode descartar: se elas são recorrentes devem significar algo mais.

A repetição não pode ser considerada apenas expressão de mentira. Mas para entendê-las é preciso circunscrever sua falsidade dentro de um contexto mais amplo: o governo Bolsonaro nada tem de “normal”, ele é uma ruptura em relação à vida política brasileira. Sem considerar este aspecto anterior, um conjunto de falas, gestos e ações da presidência tornam-se ininteligíveis. Não se pode esquecer que nos encontramos diante de uma situação na qual o autoritarismo (manifesta-se em diversas áreas: educação, cultura, meio ambiente, direitos humanos, etc.) tornou-se moeda corrente, quero dizer, banal. Dito de outra forma: os mecanismos institucionais intrínsecos à democracia são sistematicamente destruídos pela eleição institucionalmente democrática de um oligarca. Trata-se portanto de uma realização perversa da democracia, pois seus valores são atingidos na sua essência. 

Uma maneira de se compreender alguns traços deste mandonismo recente (lembra o fascismo de início e meados do século XX) é considerá-lo através da noção de populismo (não tenho a intenção de fazer uma discussão conceitual a respeito).

Mas faço antes uma ressalva: o termo, neste caso, não se confunde com a ideia de tradição populista existente no Brasil ou na América Latina (Vargas ou Peron), ele adquire um novo significado. O populismo atual é resultado de uma falha estrutural das democracias contemporâneas, por isso manifesta-se em diferentes lugares do planeta: Trump nos Estados Unidos, extrema-direita nos países da Europa oriental e ocidental.

Pode-se dizer que existem duas dimensões que o conceito nos ajuda a apreender da vida política nacional. Primeiro, que a ideia de povo pode ser simplificada como uma simples oposição entre “nós” e “eles”, “virtuosos” e “corruptos”, neste sentido, ele coincidiria com a parte sã da sociedade, àquela que os políticos conservadores preferem privilegiar. Segundo, a suspeita que o sistema representativo seria estruturalmente corrompido. Esta é uma reivindicação explícita dos bolsonaristas, o fim do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal; toda mediação entre governo e povo seria abolida em nome de uma representação mítica do governante, ele traduziria, sem intermediários, a vontade popular. Entre nós isso ficou conhecido como substituição da “velha” pela “nova” política. 

Para efeito de argumentação neste artigo, deixarei de lado o aspecto no qual o oligarca se vê como alguém acima das instituições democráticas. Considerar a ideia que ele exprime a vontade de um povo, significa aceitar uma premissa anterior: existe uma entidade idealizada, denominada “povo”, que coincide com a própria dimensão sociológica na qual os indivíduos que dele fazem parte estão inseridos. Não existiria assim uma defasagem entre a concepção ideal e a vida real das pessoas.

O populismo imagina que existe uma superposição entre que essas duas esferas. O representante do povo seria uma expressão do real. Colocadas dentro desta perspectiva as afirmações acima podem ser lidas dentro de uma linha distinta de interpretação. Não é difícil demonstrar que existe fome no Brasil, ou que o desmatamento da Amazônia seja um fato verídico. Os dados acumulados são suficientes para contradizer sua denegação. Porém, isso é pouco relevante, pois a afirmação não toma a realidade como seu referente.

O oligarca que a enuncia não está interessado na vida concreta das pessoas, mas na delimitação de um “nós” do qual ela seria a expressão autêntica. É este “nós”, que se manifesta, sobretudo nas redes sociais, que confere materialidade à sua falácia. Os apoiadores de Bolsonaro reforçam sua própria ilusão, ela planta raiz na concretude do terreno das disputas políticas.

Mas para se acreditar na veracidade do que está sendo dito é preciso aceitar que tal operação discursiva repousa numa ideologia (no sentido de falsa consciência) que exige uma clara separação entre “nós” e “eles”. A mentira é evidente para os que se situam fora do discurso populista, “verdadeira” para os que nele estão incluídos.

Mais importante ainda, o “nós” estabelece o vínculo, sem mediação, entre o povo e o oligarca. Isso tem uma implicação, os que se encontram fora das fronteiras desta definição restritiva e discriminatória de povo deveriam ser considerados como estrangeiros, isto é, a fração mínima a ser apagada da nação. Os insultos, as agressões e a força, tornam-se assim elementos legítimos na luta contra a parte malsã da sociedade, o “eles” que ameaça a idealização de um “nós”. Este é certamente um aspecto que diferencia o populismo no Brasil de outros países como os Estados Unidos, França ou Alemanha. Ali o “eles” é representado pelo que se encontra fora de suas fronteiras: os imigrantes. Tudo deve ser feito para impedir sua entrada para evitar a poluição dos valores originais da cultura nacional. Por isso a metáfora do muro retornou com toda sua força. Antes ela se aplicava à cidade de Berlim, cindida em duas partes incomunicáveis, representando a divisão entre capitalismo e comunismo. Agora volta a ser utilizada em relação aos limites territoriais de cada país ou conjunto de países (Comunidade Européia), separando a identidade de uns em detrimento de outros. No caso brasileiro a questão é outra, o tema da imigração não faz parte da agenda política atual (embora o fenômeno exista), ele não conquistou (pelo menos ainda) as mentes e os corações.

Neste sentido o “eles” manifesta-se no interior do espaço da nação. O ideal seria que ele desaparecesse, deixasse de existir, dando lugar apenas ao “nós” autoritário que se quer afirmar. Surge assim uma estranha figura política de nossos tempos: ser exilado em nosso próprio país. 

Renato Ortiz – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – Departamento de Sociologia – Unicamp

Taboa: moradores usam energia solar para iluminar residências e acionar eletrodomésticos

Nos lugares distantes no litoral do Maranhão a criatividade dos moradores adapta os recursos naturais para o uso cotidiano. Na ilha de Mangunça, a comunidade Taboa tem apenas seis residências, quase todas do mesmo tronco familiar. A pequena vila tem criação de gado, ovinos, caprinos, pescaria e extrativismo.

Sem energia elétrica convencional, as casas são beneficiadas com o recurso natural do sol para tornar a vida mais cômoda.

Dona Nalva explica como os moradores da Taboa adaptam placa de energia solar para iluminar as residências e acionar eletrodomésticos.

A Taboa está localizada no “fundo” da ilha de Mangunça, no município de Cururupu, litoral ocidental do Maranhão.

Mangunça é uma das 17 ilhas da Reserva Extrativista de Cururupu.

Breve novas postagens sobre o panorama da Taboa. Aguarde.

Imagens e edição: Marizélia Ribeiro

Amplificadoras: a pré-história do rádio em São Luís (parte 1)

Esse é o primeiro vídeo sobre os antigos sistemas de som com tecnologia de alto-falante, as memoráveis amplificadoras ou “voz”, como eram popularmente conhecidas.

Nossa primeira entrevistada, a aposentada Ligia Oliveira Belfort, de 77 anos, era fã de rádio desde criança. Ela lembra com empolgação dos bons anos 1950, quando vários bairros de São Luís tinham os seus próprios meios de comunicação – as amplificadoras.

Ligia Belfort morava na rua Senador João Pedro e ouvia sempre a “Voz Guarani”, localizada no bairro Coréia, nas proximidades da praça da Bíblia.

Ligia e as memórias das amplificadoras de São Luís

Ela sempre gostou de cantar e recorda com saudosismo as agitadas tardes de domingo, quando aconteciam os concorridos shows ou concursos de calouros. “Eu e minhas colegas íamos lá. Era muito bom, saudável”, recordou.

Segundo Belfort, a Voz Guarani pertencia a José Ribamar Sousa. As instalações das amplificadoras eram modestas: mesa de som, amplificadores e alto-falantes afixados nas copas de árvores ou em postes de madeira para propagar o som.

A programação normal durante os dias úteis consistia em pequenos informes como esboço de notícias, avisos de utilidade pública, recados, mensagens, leitura de versos e oferta de músicas, além dos cobiçados anúncios de festas na cidade.

Em São Luís, a primeira emissora de rádio propriamente dita, com uma estação profissional e transmissão por ondas hertzianas, tem registro em 1941, quando foi criada a rádio Timbira AM, batizada anteriormente de PRJ-9.

Vídeo / gravação e edição: Marizélia Ribeiro

Imagem destacada alto-falante capturada neste site

Junto e misturado

Eloy Melonio*

Que tal chamar o Latino para organizar a nossa festa?

Quem?! Que festa?!

Vamos contextualizar pra você entender melhor. Porque sem contexto não há texto, não é verdade?

Então, vamos lá. A festa do Latino é uma festa aberta e democrática, e mais um monte de outras coisas boas e politicamente corretas. E o Latino é aquele cantor-dançarino que interpreta músicas dançantes. Seu grande sucesso foi Festa no Apê, de 2008. Não sei se você lembra, mas, nessa balada, o astro da música pop dá um bom exemplo de cordialidade: “Olá, prazer”; “Chega aí, pode entrar”; “Quem tá aqui, tá em casa”; “Garçom, por favor, venha aqui e sirva bem a visita”.

Lembrou agora? De tão bacana, dá até vontade de entrar e curtir.

Nessa festa ficcional cabe todo o mundo: branco, negro, pobre, hétero, gordinho, gente vestindo verde, gente vestindo vermelho. O que vale é a curtição, a “alegria”. E em nome dessa alegria, todo mundo “pode chegar”.

Dado o contexto, vamos ver se as festas no mundo real também podem ser assim. Muita gente duvida, e acha que isso, hoje, é uma utopia.

O que se vê por aí são “grupos” (partidos, frentes, bancadas) puxando a brasa para sua sardinha. Mas não é pouca brasa, não! Se possível, é toda a brasa. E não é fácil imaginar uma festa em que todo o mundo possa entrar e se divertir. Porque, nessas festas, prevalece uma tendência exclusivista cada vez mais forte, onde as pessoas se reúnem segundo suas convicções, preferências, origens. E fecham a porta da casa para quem não dança a sua dança.

E assim nascem os conflitos, as disputas nas redes sociais, escolas e faculdades, nos eventos político-partidários. São tantas vozes, tantos gritos! Todo o mundo querendo ser o mais “isso”, o mais “aquilo”. Tudo isso faz parte da democracia, mas a forma como está acontecendo é que não é nada democrática. Palavras como “tolerância e respeito” parecem se esconder nos manuais de boa conduta, e de lá não saem pra nada.

Divergências são aceitáveis numa festa democrática e devem ser fomentadas. Especialmente se acompanhadas de bom senso, respeito, tolerância. Segundo o Gênesis, até Abraão discordou de Deus com relação à destruição de Sodoma e Gomorra. E tentou, sem sucesso, negociar uma forma de salvar aquelas duas cidades.

E a quem se poderia recorrer então?

Acho que a arte pode dar uma mãozinha. A música “Verdade Chinesa”, eternizada na voz de Emílio Santiago, nos mostra um ritmo possível: “Muita coisa a gente faz/ Seguindo a receita da vida normal”. E conclui: “O que vale/ É o sentimento/ E o amor que/ A gente tem no coração”.

Mas por onde andam essa “vida normal” e esse “sentimento”?

A verdade é que as redes sociais consolidaram uma ampla liberdade de expressão, abrindo canais para a troca de ideias, experiências e informações, promoção pessoal. Com tantas possibilidades, parecia que o homem finalmente encontrara a fonte da felicidade. Mas não tem sido assim. O universo virtual é uma “arena” onde as pessoas se digladiam, defendendo fervorosamente suas opiniões e posições. Acham que sabem tudo sobre tudo, e que podem dizer tudo sobre todos. E por aí vai. 

Antigamente dizia-se que todo brasileiro é um pouco de tudo: técnico de futebol, médico, advogado. Hoje parece que viramos todos (ou quase todos) “jornalistas e cientistas políticos”.

Não queria me deter nesse assunto, mas esta semana acompanhei indignado os “insultos” dirigidos a Alcione, nossa maior referência artística na atualidade, por causa de seu posicionamento em defesa dos nordestinos (e contra o presidente Jair Bolsonaro) no caso dos “paraíbas”. Tanta gente arrumando argumentos (e até vasculhando seu passado) para massacrar a Marrom. Não estou defendendo nossa conterrânea. O que defendo é “seu” (e nosso) direito de se manifestar criticamente sobre qualquer assunto. E o que condeno é a forma como esses ataques são feitos, e como são ― de forma inescrupulosa ― passados e repassados a outras pessoas.

Voltando ao nosso bom rapaz, seu disco era intitulado “Junto & Misturado: Fazendo a festa” (Som Livre). Uma revolução, porque até então tínhamos aprendido que “a gente se une, mas não se mistura”. A proposta do “junto e misturado” do Latino é pura empatia: personificada e materializada. Ou seja, rara expressão de atenção e cordialidade.

À propósito, a última estrofe do poema “Nosso Mundo”, escalado para o meu segundo livro de poesias, diz: O nosso mundo somos nós: eu, você, e os outros.

E por fim ― já que criar e acabar ministérios no Brasil parece brincadeira ― sugiro a criação do ministério do Junto e Misturado, que teria a nobre missão de promover o diálogo, a tolerância e o respeito entre cores, siglas, bandeiras, e tudo o mais que está “separado” por conta de nossas opções político-ideológicas.

Será que dá pra adivinhar quem eu sugiro para ministro?

Imagem destacada capturada neste site