Sobre Brumadinho e o nosso vizinho, Alumar, em São Luís

Já está passando da hora de os vereadores de São Luís, a Assembleia Legislativa do Maranhão, deputados federais, senadores, Ministério Público e o Governo do Estado constituírem uma força tarefa para fiscalizar a Vale e a Alumar, em São Luís.

Atenção especial deve ser dispensada à multinacional Alumar, fábrica de alumínio instalada no Distrito Industrial de São Luís, desde a década de 1980.

Na Alumar, a lama vermelha, resíduo da indústria de beneficiamento do alumino, é gerada a partir do refino da bauxita para produção de alumina (Al2O3).

As rumorosas “lagoas de lama vermelha” da Alumar são pouco agendadas entre os parlamentares e nos meios de comunicação. Com o novo desastre provocado pela Vale, em Brumadinho, o assunto vem à tona, mas sem desdobramentos visíveis.

É urgente dar ampla publicidade a uma rigorosa fiscalização na Alumar.

Quando digo fiscalizar falo em montar comissões e fazer visita in loco às instalações onde estão depositados os rejeitos nas lagoas de lama vermelha.

Essas visitas devem ser amplamente divulgadas, com imagens, acompanhadas de relatórios substanciosos sobre as condições de segurança onde estão armazenados os rejeitos.

Deputados e vereadores podem ainda solicitar audiências públicas com a representação da Alumar, dando divulgação ampla, a fim de que a população possa tomar conhecimento sobre todos os procedimentos de segurança nos depósitos de rejeitos.

A Vale e a Alumar instalaram-se em São Luís nos anos 1980, no contexto da modernização conservadora do Maranhão, mediante a promessa de geração de empregos e prosperidade.

As duas empresas sempre foram questionadas pelos movimentos ambientalistas, mas nunca fiscalizadas com rigor, apesar da repercussão negativa da Vale desde o desastre de Mariana, em 2015.

Brumadinho é mais um aviso.

Imagem: lagoa de lama vermelha / O Imparcial

Passos para encontrar a felicidade

Francisco Frazão Filho *

  • Licenciado em Educação Artística, Teólogo, mestre em Comunicação e Cultura e professor do Instituto Federal do Maranhão (IFMA). Autor de “Uma charge do Brasil”.

Se tem algo que todo ser humano procurará é ser feliz. De uma forma ou de outra, utilizando o bem ou o mal, as pessoas seguem o seu rumo buscando um caminho que lhe parece o mais certo, procurando pessoas, amigos e experiências que muitas vezes podem ter um desfecho trágico.

Uma adolescente ou jovem que procura experiências amorosas com um rapaz e sai de seu teto e vai até uma área isolada com o mesmo rapaz, pode sofrer consequências sérias num mundo cruel como esse em que vivemos. Isso de fato aconteceu com uma jovem e com um rapaz que foram mortos covardemente por um bandido.

Mas será que conhecemos ou temos certeza do caminho da felicidade? Ou será que podemos obter essa felicidade numa terra dessa cheia de violência.

Não se pode dizer que exista uma felicidade completa e plena, pois aqui sofremos provações, privações, desemprego, críticas, depressões, quedas e fracassos. Tudo isso faz parte da vida e temos de nos acostumar, como disse o apóstolo Paulo, a saber passar em qualquer situação.

Então não existe uma fórmula para a felicidade, nem que um padrão em que todos possam encontrar, pois alguns mesmos passam por provas duras, são perseguidos e mortos aqui, contudo têm a consciência e convicção da fé e do dever cumprido, sabendo que a terra não é definitiva e somos peregrinos.

Mas podemos, de modo geral, apresentar 4 passos para que uma vez trilhados, as pessoas podem ser felizes.

Iremos seguir numa ordem contrária ao fator que consideramos indispensável: viver uma vida com bom humor e sem estresse; exercícios físicos; boa alimentação e confiança e temor a Deus. Outras coisas podem ser citadas de acordo com filósofos: Suassuna diz que ter objetivos ou um propósito na frente que temos de seguir. O filósofo Sêneca fala da questão dos amigos que podemos ter. De fato isso nos estimula mesmo.

Em 1º lugar: uma vida de bom humor, sem os estresses excessivos. Muitos têm morrido bem cedo porque levam de modo muito sério a vida, ou como se tivessem de carregar os problemas do mundo nas costas, os problemas da família ou de uma empresa, de uma igreja. Isso não é tarefa pra uma pessoa, devemos compartilhar com as pessoas nossos problemas e reconhecer nossas limitações.

Em segundo lugar, devemos ter o bom humor, ter uma visão diferenciada da vida, rindo de nós mesmos.  Não levar muito a sério quando estamos apertados ou coisa parecida. Nesse momento, o melhor jeito a seguir e começar a rir e contar suas limitações. Ninguém é perfeito e todo mundo erra em alguma coisa.

Quando rimos ou achamos que o outro caiu, sofremos também os mesmos infortúnios. Somos todos iguais. Podemos nos irar, sair das estribeiras com alguém que dirige mal no trânsito e, no dia seguinte, cometermos as mesmas infrações. Precisamos perdoar os erros das pessoas, relevar, dar uma segunda chance. Ninguém é perfeito. Fico muito triste quando um jovem é morto por causa de um erro cometido, às vezes, pela incompreensão. Ele não teve uma segunda chance.

Em 3º lugar: Fazer exercícios físicos – É importante saber aproveitar da natureza que Deus nos deu. O caminhar sob o sol de manhã cedo, poder trabalhar com uma vassoura e ajudar em casa. Carregar tijolos, mexer uma massa, carregar pedras. Também se exercitar, correr. Ter uma vida sem hábitos salutares, como o caminhar na terceira idade e observar a vida, nos causa fastio. Também se ficamos sós em casa, parados, isso pode causa infartos, depressões, AVC’s. Pessoas têm morrido bem cedo pela falta de exercícios físicos. Os exercícios tiram as toxinas do corpo, do cérebro que começa a ficar mais leve. Aliviam o estresse e descontraem.

Em 4º lugar: Boa alimentação – Hoje vivemos da indústria da química, do plano de saúde que já se tornou indispensável. Pessoas têm ficado dependentes de remédios e de químicas. Não se utilizam com frequência os chás, as ervas medicinais, como a casca da aroeira, a romã e suas diferentes contribuições, o limão e outros frutos e folhas. Na alimentação, costuma-se dar preferencia às frituras, refrigerantes, carnes vermelhas. Faltam contrabalanças com os mariscos, os pescados. Também as verduras, as frutas que têm todas as proteínas e também as vitaminas. As sementes também são vitais: castanha do Pará, de caju, de trigo, passas e falada granola.

Deve-se evitar apenas os carboidratos: arroz, pão, farinha de mandioca.

O excesso de frangos com seus hormônios também é prejudicial, as conservas e produtos industrializados, idem.

Pelo fato de os alimentos, como frutas e verduras sofrerem ação dos agrotóxicos, é importante uma plantação familiar de tomates, limão, tanjas, cebolas, couve, cheiro verde, etc.

É importante ter hábitos alimentares saudáveis: lavar bem aos mãos antes das refeições, não pegar dentro dos copos. Higienizar pratos, talhes de um dia pro outro devido à passagem de insetos e lagartixas.

E, durante as refeições, é importante não colocar líquidos na mesa como água e suco. Deve-se ingerir os líquidos depois de pelo menos meia hora (eu tomo depois de sessenta minutos, em média). Também mastigar bem os alimentos e fazer digestão, tirando-se, se possível, uma soneca antes de ir para o trabalho ou fazer alguma atividade.

A alimentação balanceada, acompanhada de higiene e ingestão dos alimentos, leva-nos a uma qualidade de vida, sem a necessidade de ficar utilizando dos remédios químicos que têm efeitos colaterais, eles curam um sintoma, mas causam outros problemas. Alguém toma uns remédios para dor, e eles geram acidez na barriga. O antibiótico pode causar fraqueza nos ossos e dentes.

Pessoas têm ficado reféns da medicina. Mas quando o problema é grave, devemos utilizar dos benefícios da química, dos médicos e de todos os profissionais. Se for necessários, um psicólogo é importante também para uma terapia.

Vamos utilizar sem radicalismo o que Deus deixou aí: a inteligência que deu ao homem não é pecado utilizar dela. Por isso, muitos morrem cedo, ficam sofrendo doentes.

Em 1º lugar: Respeito e Fé em Deus – É o mais importante. Está comprovado que pessoas com fé reagem melhor na hora da doença. Também dizem que cientificamente é comprovado que são as mais felizes. Ter fé em Deus é importante, pois vai deixar agente em harmonia com o próximo. Conhecer a Deus nos dá segurança e um sentido mais pleno e controlável para a vida. Entender que existe um acaso pra vida e uma força que nos leva a viver é outra crença que alguns têm seguido, mas no fundo é achar que alguma força superior e até “divina” está nos dirigindo, porém é incerto. O que as pessoas querem mesmo é a liberdade. A liberdade tem um custo, pois viveremos assim apenas em função da comida, dos prazeres e do entretenimento, da arte. Assim muitos vivem. Mas as pessoas em comunhão com o Criador de todas as coisas, recebe uma paz celestial, um amor e ação de benções espirituais de Deus. Em Eclesiastes, diz também que Deus pode fazer com que o homem consiga usufruir das bênçãos da vida. Isso é um dom de Deus (Ecl 18 – 20). Gozar do fruto do trabalho, ter uma mulher e uma família pode apavorar muitos, mas tem uma recompensa boa. O solteiro no Senhor também desfruta da presença de Deus. Pode ter seus trabalhos e ações em benefício do Reino.

Alguns trabalham sem usufruir: não namoram, não praticam esportes, não gozam dos benefícios do trabalho: tecnologia, passeios, esportes entretenimento. Morrem e outros casam com suas mulheres e se beneficiam de seu esforço por meio da pensão. Às vezes, o cara trabalha tanto e quem goza são os filhos. Isso é sem sentido como mostra a Bíblia.

No fim da estrada, haverá uma situação desvantajosa pra quem é solteiro, é que poderá faltar os amigos, os parentes. Mas não Deus.

No caso da pessoa descrente, no fim da vida pode sobrar depressão quando a pessoa não tem amigos, nem renome ou dinheiro. Poderá até ter dinheiro, conhecimento, mas poderá perder o sentido de uma vida mais firmada. Pra essa pessoa a fé é ilusória.

Mas o crente vive a realidade com Deus no seu dia a dia. Sente a benção, a presença, o favor, a alegria, a vitória, a paz. Como também, as provações, as dificuldades da vida, de seguir a fé, as críticas e oposições do mundo. Em tudo é vitorioso.

Conclusão

O mais importante em nossa vida é Deus. Em segundo lugar vem a família e, em terceiro as demais coisas: amigo, trabalhos, laser etc.

Se deixarmos Deus pra último lugar, ou então o ignorarmos, em último caso, no final da vida, ficaremos sem a benevolência e cuidado de Deus, que pode mobilizar amigos e irmãos. A consequência será terrível. Tudo depende de nossas escolhas, somos livres. Aqui na terra é passagem: alimentação vai passar: exercícios, trabalho, interesses, prazeres. Em último lugar, fica restando a esperança. Será que a teremos no final da vida? A comunhão não é apenas para o final, é no presente com Deus. Não importa o muito ou o pouco.

Deus nos oferece a qualidade, o melhor, que pode ser diferente de nossa ótica.

Assassinato de colaboradores da Cemar é mais um motivo para repudiar a posse de armas

A morte de dois colaboradores da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), no Sítio Natureza, serve para refletir sobre o famigerado plano do governo federal de permitir a posse de armas.

Segundo as primeiras investigações da Secretaria de Segurança, o duplo homicídio teria sido cometido por homens insatisfeitos com o corte de energia em uma residência.

Os funcionários foram mortos a tiros dentro do carro da empresa que prestava serviço para a Cemar, no município de Paço do Lumiar, na região metropolitana de São Luís.

É preciso aguardar o resultado das investigações. Mas, independente da motivação do crime, cabe refletir sobre a posse de armas no Brasil.

A maioria da população brasileira não está preparada para ter a posse de um equipamento letal de fogo em casa. Além disso, não há condições de fiscalizar o uso de armas em um país tão grande.

Quem garante que o indivíduo com a posse de arma não vai cair na tentação de transportar um revólver ou pistola no carro ou mesmo para uma festa?

A posse de arma cria condições para um empoderamento acima do normal, podendo levar o indivíduo armado a extrapolar a razão em situações de conflito com um vizinho, por exemplo.

Como serão recebidos os colaboradores da Cemar ou da Caema por um indivíduo com posse de arma em um dia de instabilidade emocional?

O corte de energia elétrica, algo constrangedor, por si só já é motivo para chateação.

Como vai reagir o indivíduo armado diante de alguém que vai até sua casa interromper a luz ou o fornecimento de água?

Essas perguntas são fundamentais para o debate. Armar a população pode jogar o Brasil em uma guerra de todos contra todos e pavimentar o caminho para a barbárie.

Foto: divulgação

Federação Nacional dos Jornalistas repudia ameaças à liberdade de imprensa no Brasil

Em nota, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) denunciou as restrições à cobertura jornalística durante a posse do presidente eleito Jair Bolsonaro. O excessivo aparato de segurança na solenidade foi classificado como ameaça à liberdade de imprensa.

Nota oficial FENAJ

Novo governo desrespeita jornalistas e ameaça liberdade de imprensa

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), entidade de representação nacional da categoria, vem a público manifestar seu veemente repúdio às restrições ao trabalho dos jornalistas e ao tratamento desrespeitoso dispensado aos profissionais durante a posse do presidente Jair Bolsonaro, ocorrida ontem, 1º de janeiro, em Brasília. Os profissionais da imprensa foram obrigados a cumprir um horário injustificado, tendo de se apresentar para a cobertura às 7 horas, para uma solenidade marcada para o início da tarde. Jornalistas tiveram de se deslocar para os locais de cobertura em veículos disponibilizados pelo governo, não puderam circular livremente (alguns correspondentes estrangeiros consideram o confinamento obrigatório como cárcere privado), passaram por privação de água e ainda foram ameaçados, caso desrespeitassem as rígidas regras de comportamento anunciadas. Quem não respeitasse as restrições de acesso ou mesmo fizesse movimentos bruscos (aviso especial aos repórteres fotográficos, que não deveriam erguer suas câmaras), poderia se tornar alvo dos atiradores de elite. 

Na história recente do país, nunca houve restrições ao trabalho dos jornalistas para a cobertura das posses dos presidentes eleitos pelo povo brasileiro. Aos profissionais credenciados foi anunciado, por uma assessora do novo governo, que se tratava de “uma posse diferenciada e todos têm que entender isso”. A diferença, entretanto, foi uma demonstração inequívoca de que o novo governo acha-se no direito de desrespeitar uma das regras essenciais das democracias: a liberdade de imprensa. A segurança não pode ser justificativa para medidas autoritárias e abusivas, que visam, na verdade, dificultar o trabalho dos jornalistas e restringir a produção e a livre circulação da informação. O verdadeiro aparato de guerra montado para a posse revela que a tática de Bolsonaro de espalhar o medo, utilizada na campanha eleitoral, será mantida no governo.

A Fenaj soma-se ao Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, que já havia denunciado as medidas restritivas ao trabalho da imprensa quando do credenciamento dos profissionais, e exige das autoridades do novo governo uma mudança no tratamento dispensado aos jornalistas no exercício da profissão. A Federação também cobra das empresas de comunicação postura mais firme na defesa de seus profissionais e da liberdade de imprensa. A maioria das empresas nem mesmo denunciou as medidas restritivas imposta pelo governo e o tratamento desrespeitoso dispensado aos jornalistas.

Não podemos naturalizar medidas antidemocráticas, para que não se tornem a regra. A democracia exige vigilância e estaremos vigilantes.

Federação Nacional dos Jornalistas – Fenaj.

Brasília, 2 de janeiro de 2019.

Imagem destacada:
Foto: Leonardo Milano, neste site

Nova direita terá embate com os antigos coronéis

Pode não ser tão fácil quanto se imagina a vida do governo Jair Bolsonaro.

A nova direita, embora venha incensada por milhões de votos, terá de disputar poder e dinheiro dentro do Congresso Nacional com os velhos esquemas de corrupção liderados pelos antigos coronéis.

Renan Calheiros é um exemplo típico de quem não vai se deixar domar facilmente pelos novos líderes emanados das urnas.

Bolsonaro, embora eleito com ufanismo, terá de ceder à regra do jogo.

Calheiros é forte candidato à presidência do Senado e pode ganhar, seja por acordo com a própria base governista, ou impondo uma primeira derrota ao Palácio do Planalto.

É uma questão de sobrevivência e tradição. A casta privilegiada dos grandes partidos, sanguessuga da República, não vai abrir mão dos seus privilégios para entregá-los aos bichos recém-saídos do porão.

O governo que assume, embora incensado por uma base que lhe parece fiel, terá uma disputa de foice entre o antigo esquema de corrupção e a fome de poder e dinheiro do baixo clero.

Na Câmara dos Deputados já se colocam panos quentes para acomodar a reeleição de Rodrigo Maia. É a velha política com apoio da nova direita.

Acostumados ao pântano do Congresso Nacional, Rodrigo Maia e Renan Calheiros gostam de mandar e estão acostumados há muito tempo nessa posição.

Eles terão dificuldade em aceitar ordens de deputados-pastores mercenários que sempre estiveram em posição submissa no jogo de poder.

Os novos famintos e os antigos bolsos fartos terão embates. E desse conflito sairá a síntese entre o campo conservador e a extrema direita.

A governabilidade será fruto dessa tensão. E pode ser que Bolsonaro tenha baixas no primeiro momento, até que os cofres se abram para fazer os devidos ajustes e deixar tudo como antes.

A República só tem a perder com esse tipo de gente.

Imagem destacada retirada deste site

Governo Bolsonaro: o banquete da Casa Grande e do baixo clero

A excessiva aproximação do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) com os Estados Unidos e Israel revela os interesses precisos do capital internacional no Brasil.

O governo vai tentar agir rápido para entregar aos banqueiros tudo o que resta das reservas naturais, o lucrativo negócio da previdência privada e os setores estratégicos nas áreas de energia e geopolítica.

A Amazônia será um foco, embalsamada no discurso de exterminação das reservas extrativistas e indígenas para arregaçar todas as fronteiras ao agronegócio e às multinacionais dos medicamentos e mineradoras.

Esse plano econômico de submissão do Brasil aos interesses imperialistas se alimenta na velha base reacionária que, pela primeira vez, terá na Presidência da República um representante “dos seus”.

Bolsonaro é a revolta do porão, o banquete onde vão se locupletar a Casa Grande e o baixo clero, evangélicos mercenários, militares e civis incensados pelo agendamento da segurança pública e os parlamentares emanados do processo de judicialização da política.

Somam nesse perfil as celebridades artificiais produzidas por surtos digitais ou programadas profissionalmente para pontificar nas redes sociais.

Essa gente que “causou” na web, com discursos histéricos em nome da moralidade e dos bons costumes, defende a família e bate palmas para o ator pornô Alexandre Frota.

É o tipo de ser humano que condena o PT, mas perdoa Michelle Bolsonaro por ter recebido dinheiro do assessor Queiroz.

As desculpas esfarrapadas já começam a surgir: “foi apenas 24 mil”, “o Coaf só enxerga a família Bolsonaro”, “a Globo está a serviço do PT” e por ai vai.

Nunca antes a mentira e a hipocrisia tiveram pernas tão longas.

Se o PT cometeu erros ao longo do processo histórico, cedendo aos encantos da governabilidade a qualquer custo, a direita de 2019 em diante já assume o poder contaminada pelo germe do fisiologismo e do clientelismo.

A nova legislatura não é uma qualquer. Vem montada em milhões de votos, tem uma forte base fundamentalista organizada em igrejas, na indústria do veneno e nas corporações de segurança.

Esta base que já existia agora ganha força política dentro da máquina governamental. Os parlamentares pastores, outrora relegados ao segundo plano, comendo apenas as sobras dos grandes negócios da República, sentarão na mesa principal do banquete.

Que se lambuzem de poder, dinheiro e hipocrisia o mais rápido possível. Pode ser que a mistura faça mal a eles e bem ao Brasil.

Memórias do Apeadouro: “sarrar” e cabeça de peixe

(Ed Wilson Araújo)

Dona Cocota e seu Raimundo (Mundico), vizinhos de muro com muro na rua Sousândrade, disputavam acirradamente o título de melhor triturador(a) de peixe do Apeadouro.

Ela está vivinha da silva para contar a história e ele, no céu, lugar de gente boa como era meu pai, o popular Cabeça Branca, conhecido na feira do João Paulo, onde foi quitandeiro por uns 40 anos ou mais.

Papai gostava especialmente de um peixe pequeno chamado bagrinho, cozido com caju azedo, que dava um sabor especial no caldo.

Ainda tenho na lembrança aquela montanha de carcaças de bagrinho em cima do prato, caindo pelas beiradas, depois de um banquete com as tradicionais chupadas na cabeça do bicho, arrematado com a famosa mistura do caldo com farinha.

É uma arte sugar as reentrâncias da parte superior do peixe, onde estão as gorduras derretidas mais saborosas. Chupador(a) de verdade se lambuza com método e perícia para devorar a iguaria com astúcia.

Cocota e Mundico tinham o costume de trocar um relaxo sempre que o pescado era o prato do dia: “eita, aí gosta de chupar uma cabeça de peixe”.

Não se sabe como, esta expressão, “chupar uma cabeça de peixe”, foi adaptada pela juventude do bairro.

Nos anos 1980 era tudo mais difícil. Para rolar uma transa não tinha as facilidades de hoje: motel, carro, dormir na casa do namorado ou namorada e tantas vantagens para ficar junto.

Ed Wilson e Solange Knapp (abraçados), o Bala, dona Cocota, Neilma e meu pai Raimundo (Mundico) ou Cabeça Branca

Geralmente, quando a turma do bairro via alguém arrumado e perfumado saindo fora do território, logo começavam as especulações, até que a pessoa declinava a frase desdenhando da molecagem – “vou ali chupar uma cabeça de peixe”.

Em tradução direta: o rapaz ia “namorar de porta” e o máximo desse ato era beijar.

Namorar de porta significava ir para a casa da menina, entrelaçar as mãos, conversar e sorver os lábios um do outro, sabendo que os pais ou irmãos da jovem poderiam surpreender o casal a qualquer momento.

Além desse namoro de porta, havia uma opção mais caliente: “sarrar”!

Esse ato libidinoso não combinava com namoro de porta, sob os auspícios dos pais. Sarro pra valer tinha de ser em lugar neutro: embaixo de árvores frondosas, encostados em um carro, nos arredores dos largos das igrejas, em alguma sombra onde tivesse uma calçada alta para encaixar os corpos em pé.

Sarrar é uma prévia elevada à terceira potência, uma esfregação sem fim de genitálias sob as roupas, mãos salientes deslizando por onde for possível e laços de língua em movimentos frenéticos.

Sarrar era um ato sexual sem penetração, porque todo o enlace era feito em pé e o casal se esfregava vestido.

Quando havia a evolução de “chupar a cabeça de peixe” para o sarro, era a glória entre a rapaziada!

Nesse tempo não tinha celular, telefone fixo era um luxo, carro em nosso bairro uma preciosidade e motel só no improviso da “Brisa”, uns quartinhos de aluguel, encravada entre o Alto Paraíso e o relógio do João Paulo, onde hoje tem a estátua de São Marçal.

Tinha gente no Apeadouro que caminhava quilômetros a pé para chupar uma cabeça de peixe em outros bairros distantes e só voltava tarde da noite, sem se preocupar com violência.

Saudades dessa cidade que se foi e dos bons tempos do Apeadouro.

Imagem destacada: turma do Apeadouro na porta da antiga quitanda do Bala. Na sequência da esquerda para a direita: Bala, Eduardo, Maria, Cocota, Neilma, Ernildo, Solange, dona Silvia, Apolo e Lady Laura. Ao fundo: Benigno, Gugu, Guimarães e Danilo.

Praça Deodoro: um conto de fadas no Centro de São Luís

(Ed Wilson Araújo)

Uma grande festa celebrou a inauguração do complexo de obras da praça Deodoro, até pouco tempo marcada por uma paisagem grotesca no principal logradouro de São Luís. O Centro da cidade está mais belo e vai ficar ainda melhor quando for concluída a reestruturação da rua Grande.

A cidade respira um astral nunca antes visto nas últimas três décadas. Os ludovicenses apaixonados e os visitantes deslumbrados estão eufóricos. Basta observar o congestionamento dos moradores e turistas para apreciar as luzes de Natal no Palácio dos Leões e toda a ornamentação que se estende até a praça Benedito Leite.

O conjunto de obras é fundamental para revitalizar o comércio, a mobilidade, a habitação e o turismo em uma região da cidade por muito tempo negligenciada e agora valorizada no programa do governo federal (PAC Cidades Históricas), em parceria com a Prefeitura e o Governo do Estado.

A revitalização do complexo Deodoro é o coroamento de três décadas de uma sequência de gestões. Ufa! 2019 completa o ciclo de 30 anos de domínio e herança do mesmo grupo político, com algumas variações, na Prefeitura de São Luís.

Os muito apaixonados estão todos refastelados com este feito homérico, elogiando-se uns aos outros, nesta cidade ainda marcada por características provincianas, onde a crítica reverbera tons de medo, despeito ou repulsa.

Neste ambiente provinciano, a discordância é vista até como ato de má vontade, atribuído às pessoas mal intencionadas que sempre enxergam defeitos no sucesso dos gestores públicos.

Dito isso, vamos aos outros fatos que contrariam a euforia da praça Deodoro.

Esta cidade fantástica do Centro, quase um conto de fadas, destoa da São Luís profunda, onde os serviços públicos não alcançam a maioria da população ou chegam precariamente.

Em qualquer capital do Brasil pelo menos as avenidas principais têm asfalto decente. Em três décadas de repetição do mesmo grupo político, nem a pavimentação melhorou nos principais eixos rodoviários.

Quem sai do Anil percorrendo o antigo Caminho Grande para alcançar a praça Deodoro parece dirigir na mesma estrada carroçal de outrora, como se ainda vivêssemos no passado da engenharia asfáltica.

Asfalto é apenas um detalhe da complexa teia de equipamentos da mobilidade urbana, nesta cidade onde só há uma faixa de pedestre decente, na área nobre de São Luís, em frente ao Tropical Shopping, mesmo assim com a rampa lateral danificada.

Esses pequenos registros da paisagem são apenas detalhes de algo muito grave – o zoneamento de São Luís. A Prefeitura que torra milhões do dinheiro público em propaganda deveria divulgar amplamente as audiências públicas que vão alterar o Plano Diretor.

Uma gestão com o mínimo de transparência deveria convocar e esclarecer a população sobre as mudanças no uso e ocupação do solo urbano que muito breve irão impactar no cotidiano da população.

Se teremos mais poluição e calor na cidade, será fruto das mudanças no Plano Diretor, mas este debate é omitido pela Prefeitura.

Vivemos em São Luís uma versão da sociedade do espetáculo (Guy Debord), onde a população só é chamada para aplaudir as inaugurações das obras, sem de fato participar da gestão da cidade.

Por sua vez, a Câmara dos Vereadores, salvo as exceções de alguns edis, funciona como engrenagem de transmissão das vontades do Palácio La Ravardière, transformando o Legislativo em um poder submisso ao prefeito.

Esta Câmara, por exemplo, passou sessões intermináveis debatendo o projeto da Escola Sem Partido, muito preocupada com as questões morais da família, mas pouco se importa com as famílias maltratadas pelo abandono dos bairros sem saneamento.

Por falar nisso, temos de reconhecer: São Luís só é democrática em um quesito – a falta de saneamento. Em qualquer lugar da cidade, na área nobre ou na periferia, tem esgoto transbordando. Nesta cidade, a fedentina é ampla, geral e irrestrita.

Os vereadores, tão preocupados com a sexualidade das crianças, não fiscalizam as precárias condições das escolas municipais e os esquemas dos anexos na rede pública de ensino, onde prepondera o clientelismo e o fisiologismo para a manutenção dos micropoderes eleitorais.

Onde está a sensibilidade dos vereadores diante da situação das crianças encurraladas nos anexos da rede municipal de ensino?

A Câmara dos Vereadores negligencia sua função de fiscalizar o prefeito. Não há notícia de uma CPI para investigar a situação das escolas municipais e as comunitárias, a megalicitação do transporte público, os aluguéis dos prédios particulares pela Prefeitura, os índices de poluição na cidade, os Socorrões, os contratos com as empreiteiras e tantos outros temas de interesse público.

O sentido da cidade é a democracia. Sem participação e transparência não há gestão pública, no sentido rigoroso do termo. Aí predominam os interesses privados dos grupos econômicos que operam o orçamento.

Nesse contexto das alterações no zoneamento, a Prefeitura age como lobista dos interesses do capital para lotear a cidade ao sabor das empreiteiras, pouco importando se teremos menos áreas verdes, mais calor, menos espaço para os pedestres e mais poluição.

São Luís é uma virgem cobiçada pela especulação imobiliária e as mudanças no zoneamento estão a serviço de um casamento, cujo dote é o mercado das terras, direcionando a cidade histórica para uma configuração portuária e industrial.

É óbvio que todos estamos felizes com a revitalização da praça Deodoro. Não ponhamos fel no mel da notícia para não desagradar os apaixonados.

Mas também não vamos cegar a crítica. Sem ela, o jornalismo perde o sabor e o sentido.

Foto do topo: A. Baeta.

O pênis decepado e o sucesso da sofrência

por Ed Wilson Araújo

Ao longo de toda a minha vida de jornalista eu nunca tinha escrito um texto com título tão apelativo, escandaloso e sensacionalista.

Num dia triste e frio de Porto Alegre, eu saí do teatro São Pedro pensando no padre Antonio Vieira:

“A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena.Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme; quando cada palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte; quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atônito, sem saber parte de si, então é a preparação qual convém, então se pode esperar que faça fruto […]. (VIEIRA, 2013)

Foi assim que a minha alma ficou após as cortinas se fecharem – torturada, sentindo o açoite das cenas, em harmonia coma navalhada das falas. Cada ator tinha, entre os dentes, a língua ensanguentada pelo ódio das lâminas atravessadas no meio da boca.

Baseada no texto do dramaturgo grego Dimitris Dimiátridis, com a direção de Luciano Alabarse e Margarida Peixoto, a peça “A vertigem dos animais antes do abate” aborda a formação e a decadência de uma família conturbada pela sexualidade do patriarca, produzindo um turbilhão de paixões entre o casal, os filhos e um amigo.

A trama é atravessada por conflitos de toda ordem das paixões – amor, ódio, avareza, desejo, ira, ganância, inveja,arrogância, luxúria, fome de poder… – numa impressionante dinâmica cênica com final surpreendente, que resulta em ato extremo insinuado no título desse texto.

Pausa para o(a) leitor(a) me chamar de spoiler!

No teatro, a família esfacelada parece receber inspiração filosófica. É como se Nietzshe colocasse querosene na fogueira de Bakunin.

Escrita por um grego nascido em 1944 (Dimitris Dimiátridis) a peça bebe na fonte da tragédia grega clássica.

Como não sou crítico de teatro, fiz referência ao espetáculo apenas para falar sobre outras dimensões da tragédia -a vida comum das pessoas fora do palco.

Por diferentes caminhos, estilos e formas de expressão, o sentido da tragédia está presente tanto nos artistas eruditos quanto nos compositores populares. Ocorre que as distintas formas de apropriação das pulsações do mundo pelos artistas levam a produção cultural para ambientes separados: o bar cult e a choperia; o teatro acarpetado e apraça; o meio da rua e o palco sofisticado; o You Tube e o velho rádio.

Todos são válidos e refletem o espírito democrático da produção, distribuição e consumo dos bens culturais.

O brega e a sofrência, por exemplo, são manifestações precisas dos conflitos humanos, onde o amor é sempre acentralidade.

Em torno dele, o amor, circula um imenso caleidoscópio de sentimentos e motivações tantas.

Na música popular, aquela que toca nas quitandas, nos botecos, nas espeluncas das feiras, nas choperias, serestas, clubões e galpões de festa, barracões e terreiros, o amor é o mantra.

Com ele, circula uma atmosfera de sentimentos e atos: ciúme, traição, machismo, vingança, perdão, reencontro,decepção, interesse, desejo, sexo, poder e impotência, dinheiro, casamentos e divórcios, paz na cama, separações e reencontros, frustrações, volta por cima,opressão, exploração, submissão…

Esse é o manancial de sensações que permeia as músicas dominantes nas camadas populares.

A sofrência, por exemplo, percorre com maestria esse universo das subjetividades plenas de desejo, em versos fáceis,rimas previsíveis, acordes padronizados, bons de memorizar e repetir, cantar sem perceber, automaticamente.

A música popular industrial ou mesmo a produção artesanal transformada em hit de massa na era digital penetra no universo sensorial das pessoas em busca de fidelizá-las pelo coração, no sentido mais piegas para a tradução do amor.

Os temas das composições são sempre os mesmos, mas nunca perdem a majestade: o amor, na sofrência, só faz sentido se tiver conflito, frustração, contrariedade, dor … em uma palavra, tragédia!

As coisas do coração alimentam uma estética sonora fatal, precisa, direto ao ponto frágil – a crise conjugal, o amor não correspondido, relacionamento proibido ou incompatível pela posição social, dinheiro, as antíteses do casal, cenas de ciúme, desprezo, abandono,infidelidade, reconciliação e tantos outros lances.

A cada tempo, a indústria fonográfica ou alguém de fora do circuito comercial fabrica uma letra mágica, transformada em mantra nos programas de rádio, celulares, nas redes sociais, radiolas dos bares,carros sonorizados e shows ao vivo nas festas populares.

Se você, caro(a) leitor(a), andar pelos bairros de São Luís vai perceber enormes cartazes colados nas paredes anunciando festas grandiosas dos cantores de brega, sofrência e sertanejo universitário, apenas para ficar nesses exemplos.

Esses shows, às vezes produzidos até fora do circuito comercial, arrastam multidões.

O hit marcante o ano inteiro está sempre colado no tripé amor / traição / sofrimento.

2018 já tem um verso predominante, com um título formado apenas por duas letras: “Oi”, composição de Bruno Caliman e sucesso na voz de Leo Magalhães. O refrão, uma febre, é de uma simplicidade cruel:

 “Toda vez que você me disser oi / Eu vou responder só oi”

Esta letra, como outras a cada época, virou epidemia musical. Toca em todos os lugares, independente da chamada grande mídia, às vezes sem o controle dos donos das gravadoras gigantes.

É a música temática daquilo que é latente na vida comum: “chifre”, escracho, deboche, a fofoca d@s feirantes, as futricas da vizinhança, o papo predileto dos homens no balcão do bar, a resenha da quitanda, o papo em volta do jogo de dama e dominó ou depois do jogo de futebol e dos fuxicos dos homens bisbilhoteiros que não curtem esporte.

Sem qualquer pretensão de escrever sobre teatro, tema que desconheço, tomei a peça citada apenas para abordar outro tipo de tragédia – a música consumida nos meios populares, o lugar onde,concretamente, um processo de indústria criativa se alastra, capaz de produzir fenômenos como Reginaldo Rossi e Amado Batista, este último colecionador de prêmios e tantos discos de ouro e platina.

Eis o som da malemolência, da pilantragem e da malandragem, dos homens e mulheres vadios (no sentido filosófico da vadiagem)…. É o hit da sacanagem, da traição pela frente e por traz, da raparigagem e do tomamento de gosto com a pessoa proibida.

A traição refinada na tragédia grega é a raparigagem da sofrência. O cult sofisticado e o trivial comem o mesmo alimento espiritual – as paixões e as suas deformações.

Ou mutilações. O pênis decepado no teatro é a imagem e semelhança do homem ou mulher impotente, traído(a)! Ele geralmente vai para a mesa de bar e finaliza a farra madrugada adentro, com uma cerveja quente, derrotado por si mesmo, diante da incapacidade de amar ou ser amado.

Certas melodias suscitam amputação. É oque se costuma dizer sobre determinado padrão denominado “música de cortar pulso”.

Ao final de um processo grotesco de aniquilação do casamento e da família, o patriarca na peça “A vertigem dos animais antes do abate” decepa o próprio pênis, apontando o seu órgão genital -a representação da virilidade – como responsável pela sucessão de tragédias.

No teatro, o pênis, participante da cópula que engendra a criação, é um objeto sexual propagador da destruição de uma família inteira por crime e loucura.

A instituição familiar, um dos pilares da sociedade burguesa, foi implodida no teatro grego.

Outras tantas tragédias cotidianas são narradas pela música do meio popular, falando sobre a vida comum e as dores do amor.

Sofrência, foi a tragédia que te pariu!

Leia mais sobre a peça “A vertigem dos animais antes do abate aqui e aqui

Imagem: recorte do cartaz da peça “A vertigem dos animais antes do abate”, retirada dese site

De tempo em tempo

Eloy Melonio *

“(…) e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou.” (Ec 3.1-2)

Pela primeira vez, elas passaram a tarde brincando de montar a nossa árvore de Natal. Terminada a brincadeira, festejaram como se fosse uma obra de arte. A árvore logo estava repousando sobre uma mesinha no canto da sala. E as duas, felizes, sorriam como quem acaba de ganhar o presente de seus sonhos.

As personagens referidas são minha esposa e nossa netinha de 8 anos. E é com seu entusiasmo que quero ilustrar o assunto deste ensaio: a vida se dá em ciclos.

Tudo isso porque dezembro é o tempo das “festas natalinas”. Em cena, a árvore de Natal, o Papai Noel, brinquedos, confraternizações e a ceia em família.

Os ciclos são a repetição de fenômenos e acontecimentos culturais ou sociais que se sucedem numa ordem determinada, como um aniversário. Com eles a vida segue sua rotina virtuosa, reafirmando e celebrando épocas, datas, momentos. Sejam de ordem cívica, social, cultural, religiosa… Sempre ligados entre si.

Nas sociedades primitivas, as luas, as colheitas, as festas religiosas ditavam o ritmo da vida. No mundo contemporâneo, tudo o que se possa imaginar. Até uma tal de Black Friday!

Enquanto escrevia os parágrafos anteriores, sentado à frente da tevê, ouvi essa frase mais de vinte vezes. Acho que só funerária e cemitério ainda não usam essa promoção, ― como quase tudo que diz respeito ao marketing ― criada pelos americanos. Mas quem garante que no próximo ano isso já não esteja acontecendo! Principalmente hoje quando os custos de um funeral estão pela hora da morte.

Por falar em marketing, o comércio depende essencialmente das datas comemorativas: Dia das mães, dos pais, das crianças, dos namorados. E agora, mais uma novidade: o “mensário”. E o que é isso?! Uma festinha em que os pais celebram o nascimento do bebê a cada mês até a data oficial do aniversário de um ano.

O certo é que os ciclos nos mantêm vivos, revigorados, esperançosos. O principal exemplo é o ano do nosso calendário que marca a passagem do tempo, e cujo apogeu é a “virada”. E assim, o ano-novo começa no último dia do ano velho, e o ano velho termina no primeiro dia do ano-novo. Nesse embalo muita gente vive intensamente os dois momentos: as últimas horas de um (realizações) e as primeiras do outro (resoluções).

Entre o início e o fim de um ano, muitas datas para celebrar. Termina uma, e já sonhamos com a próxima. Depois do Reveillon, o Carnaval. E logo em seguida, a Semana Santa, o São João. Tenho uma amiga que sonha com o Halloween desde agosto. Outra, mal termina o Carnaval, já está com o pé no São João. E, dessa forma, os interesses e os apegos diferem de pessoa para pessoa, de cultura para cultura.

No meio desse fluxo não se pode esquecer as campanhas de saúde pública. Todo ano, as fachadas de alguns prédios públicos e também os profissionais (e ativistas) vestem-se de cor-de-rosa (outubro) e azul (novembro) para lembrar a necessidade de exames preventivos do câncer da mama e da próstata, respectivamente. Inesquecível, e até mesmo incômodo, é o ciclo menstrual que se repete a cada quatro semanas na rotina das mulheres.

Vale lembrar os eventos de cunho político-partidário, religioso, ideológico. Nesse cenário, destacam-se a Parada Gay (ou “do orgulho LGBT”), a Marcha para Cristo, Dia da Consciência Negra (um feriado novo em alguns estados do Brasil), entre outros.

Convenhamos: é no passar e repassar dos ciclos que o nosso espírito gregário se fortalece. Afinal, a beleza da vida está nesse vaivém dos momentos memoráveis. Quanto mais ciclos em nosso currículo de vida, mais sábios, mais felizes, e mais conscientes de nossa condição humana.

Dito isso, só tenho uma dúvida: não sei se minha netinha virá ajudar a vovó quando chegar o dia de desmontar a árvore de Natal.

*Eloy Melonio é professor, escritor, poeta e compositor.