Neymar, Garrincha e a Democracia Corintiana

Ed Wilson Araújo

Essa crônica foi colhida no calor dos estádios, observando as cenas dos animais humanos no redemoinho das arquibancadas, onde alguns torcedores são quase seres mergulhados no estado de natureza.

Em tempos de fake news e obscurantismo, cabe uma boa reflexão sobre os significados da palavra “torcedor”. Na gíria do futebol, é a pessoa que vai aos estádios animar seu time no espaço coletivo da torcida, um território afetivo onde todos são homogêneos, ungidos pelo sentimento de fidelidade, compromisso e adoração pela equipe.

Na torcida tem-se a sensação de pertencimento à mesma família, lugar de compartilhamento das afinidades e construção de uma fidelidade infinita, jamais traída. A torcida é, portanto, um ambiente de concretude das identidades convergentes para a adoração do time e dos seus símbolos.

As origens remotas da torcida estão nos jogos romanos, tempos da política do pão e circo, quando ocorriam as grandes competições entre gladiadores e animais selvagens, além de outros entretenimentos para as massas, visando acalmar as animosidades do povo contra os governantes.

O Coliseu Romano era a grande arena onde os gladiadores promoviam os espetáculos grotescos de violência e o templo da diversão para os aficcionados cultivarem os seus ídolos. Pode estar aí a gênese da torcida.

Torcedor é um apaixonado. Sendo uma paixão, no sentido filosófico, a torcida não tem racionalidade. Nesse sentido o torcedor é uma pessoa cativa (vive no cativeiro das emoções), está preso às suas convicções pelo instinto do fã, podendo evoluir para o fanatismo, como em algumas torcidas organizadas e violentas, a exemplo dos hooligans, para ficar apenas em um caso.

Nesta etapa de desmoralização da Lava Jato, é sempre bom lembrar: as convicções não carecem de provas e argumentos lógicos que sustentem a verdade. Daí que o torcedor pode evoluir da torcida para a distorção dos fatos no jogo e sempre produzir uma versão favorável ao seu time. Por isso é muito comum a torcida aplaudir ou xingar o juiz, dependendo da ocasião, se o árbitro desagrada ou favorece o time do torcedor.

Mané Garrinhcha, estilo popular e indisciplina. Foto capturada neste site

Amor e ódio são as duas paixões mais visíveis no campo de futebol. Se o time manda bem no jogo, a torcida aplaude. Se falha, é condenado. Palmas e xingamentos alternam-se no decorrer da partida ao sabor dos humores provocados na torcida durante o desenrolar do jogo.

O torcedor é a quinta potência do pragmatismo porque só lhe interessa o que é vantajoso e favorável.

As convicções do torcedor, independente da realidade concreta, são parecidas com a postura daquelas pessoas excessivamente movidas pelos afetos, capazes de torcer e distorcer os fatos ao sabor dos seus interesses pragmáticos. Está aí o terreno fértil para o fenômeno fake news, quando as crenças passam a ser o critério para adotar uma determinada versão dos fatos sem qualquer correspondência com a verdade.

Neymar Junior estilo ostentação. Foto do site O Tempo

Nessa crônica eu posso escrever sobre torcer e distorcer a torto e a direito. Só não vale falar em (des)torcer, ou seja, deixar de torcer, porque o torcedor é um ser cativo.

Destorcer está diretamente relacionado a endireitar, equilibrar, deixar certo no lugar de torto. Essa palavra – destorcer – não cabe ao torcedor porque ele é sempre tendencioso, apaixonado, guiado pelas crenças e convicções de que o seu time está certo e o juiz, errado, quando a arbitragem não lhe é conivente ou conveniente. Por isso o torcedor tende a distorcer a arbitragem, ou aplaudi-la, quando é favorável ao time amado.

Esse é o torcedor passional da maioria dos estádios, movido por alegria, tristeza, amor, ódio, cólera, medo, esperança, orgulho… Trata-se de um bicho instintivo, guiado pelos impulsos naturais cegos, os sentimentos e ações incontroláveis, às vezes, como no caso das brigas de torcida.

Torcer tem ainda um sentido político muito forte desde sempre na constituição humana.  O verbo torcer conota ações bruscas sobre o corpo para dobrar a pele ou esticar os músculos e os ossos. O beliscão é uma forma de torcer a pele.

Depois do beliscão veio a palmatória e em seguida os “dispositivos” ou “aparelhos” para torcer algo, como o alicate ou a torquês, originária do verbo torquere = girar, torturar, virar, torcer, voltar… Durante a escravidão, os alicates eram usados para arrancar os dentes dos escravos, apenas uma das modalidades de castigo no âmbito da tortura.

Nunca um homem fora tão torturado como Jesus Cristo, mas foi na Idade Média que os dispositivos ganharam precisões científicas, sendo esta prática um ramo de atividade próprio dos especialistas em fabricar aparelhos e desenvolver técnicas específicas para o castigo corporal.

Trata-se de um expediente utilizado para obter uma confissão forçada ou uma culpa do torturado mediante a covardia da violência física e psicológica, em que uma pessoa aplica demasiados castigos corporais com requintes de violência contra alguém indefeso.

A tortura é típica das ditaduras, como a brasileira, recheada de farto conjunto probatório. No futebol, um dos mais belos exemplos de resistência ao regime dos militares nos campos foi a Democracia Corintiana, um movimento liderado por Sócrates e sua indelével marca de não comemorar os gols, em protesto, erguendo apenas o punho. Era uma forma de protesto contra o autoritarismo.

Resistência à ditadura militar, a Democracia Corintiana foi um marco no futebol. Foto capturada no site O futebol e a escola

Na Democracia Corintiana não havia dono do time. As decisões eram tomadas através do diálogo entre jogadores, comissão técnica e os dirigentes, construindo uma relação produtiva e saudável que extrapolava as quatro linhas.

Das suas muitas facetas, torcida tem sempre sofrimento. Dentro e fora de campo. E nada como um escândalo para atiçar as paixões. Dinheiro, poder e fama exagerados são ingredientes fundantes das extrapolações.

O termo paixão deriva do grego pathos, que significa excesso, catástrofe, passagem, passividade, sofrimento e assujeitamento. As paixões são desenfreadas e conflitantes, por isso o juiz é bom ou mau a cada lance.

As paixões no futebol vinculam-se bastante aos ídolos de cada time, daí o sentido da idolatria e, em alguns casos, do fanatismo. Torcer é também sofrer, algo impregnado de tragédia grega, drama!

As paixões estão atracadas não só na performance dos ídolos dentro das arenas. A vida privada movimenta os sentimentos e instintos dos torcedores em dimensões estratosféricas com o advento das redes sociais, ambientes propícios para a exaltação do corpo e da luxúria dos ídolos.

A bola da vez é Neymar Junior. O Brasil inteiro e parte do mundo estão mobilizados em torno do debate sobre esse escândalo esportivo e sexual. Não se sabe qual será o desfecho desse melodrama, no bom sentido.

Se ele bateu em um torcedor na arquibancada, o que seria capaz de fazer com uma mulher numa suíte de hotel?!  É certo que ele deve pagar pelos seus atos e ser condenado, se for culpado.

Antes, tantos outros craques foram problemáticos. A tumultuada vida de Garrincha e Elza Soares serviu de inspiração para filme. Por natureza Garrincha já era a indisciplina em estado bruto – o jogador de pernas tortas contraria a perfeição corporal dos atletas midiatizados na atualidade.

O “mau” comportamento de Garrincha começava dentro de campo com os seus dribles de cinema. Um jogador como ele, no futebol de hoje, não cabe em um esquema tático.

Fora de campo era mais indisciplinado, mexido pelas energias do sexo e álcool. Alguns conseguem administrar as consequências; outros, perdem o controle.

O futebol, como é o terreno das paixões, tem dessas coisas. Vaias e aplausos alternam-se com imensa volatilidade nas torcidas.

Os ídolos carregam glórias e crepúsculos. Saudades do punho erguido de Sócrates e da Democracia Corintiana.

Foto do topo capturada neste site

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